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Uma Loja de Atitude – matéria da Carta Capital
28/06/2010 2 comentários

 

N o fim de uma manhã nublada, Fábio Martins passeia pela Galeria do Rock, famoso conglomerado de  lojas de artigos musicais da região central de São Paulo. Uma vitrine repleta de títulos de literatura marginal dispostos entre peças de roupas desperta-lhe o interesse. Ele reconhece o vendedor atrás do balcão: é Ferréz, rapper, autor de nove livros, entre os quais Capão Pecado, em que retrata as agruras do Capão Redondo, bairro da zona sul onde mora. 

Martins trabalha na Associação Lua Nova. Localizada na área rural de Araçoia- ba da Serra, interior do estado, a ONG assiste mães adolescentes que moravam na rua. “Acabamos de ganhar uma biblioteca. Levarei alguns livros para as meninas conhecerem o Ferréz. Gostaria também de marcar uma palestra”, diz Martins. “Vou te mandar um texto que acabei de escrever sobre mães solteiras, literatura real, da vida real. E vamos combinar o encontro sim, mano”, agradece o escritor, de boné e camisa brancos, calça larga e olhar atento. 

Ferréz tem recorrido à tênue fama literária para propagandear a 1daSul, marca de roupas e acessórios produzidos no Capão, que completou 11 anos em 1o de abril. O dinheiro amealhado com as vendas financia palestras literárias e projetos sociais na região. 

Há poucos meses, a grife ocupa o número 40 da Galeria, no subsolo conhecido como andar do hip-hop. É o primeiro estabelecimento do prédio, que Ferréz frequenta desde menino, dedicado à literatura denominada marginal. 

“Pra quem mora na periferia, o centro é um lugar mágico. Quando vai ao cen- tro, você sempre pergunta pro vizinho se ele precisa de alguma coisa”, situa. 

Nas estantes da loja estão cerca de cem títulos, parte deles de autores peri- féricos. Consta da livraria Cronista de um Tempo Ruim, obra de Ferréz que inaugu ra o Selo Povo. “Trago também alguns livros do meu acervo, lidos mais de uma vez. Não gosto de segurar informação”, 

explica, ao ser perguntado sobre o que fazem na prateleira Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, e O Dia do Chacal, de Frederick Forsyth. “Quando leio ecomento com você, fortifico aquilo que aprendi. Esse amor é próprio da literatu ra marginal e dos escritores engajados.” Ele cita a obra Egon Schiele na Prisão, série de aquarelas do pintor austríaco (1890-1918) concebidas em 1912. O preço de um exemplar novo é promocional: de 47 por 29,90 reais. Os livros de bolso 

custam 5 reais. “A literatura não pode ser um vinho caro, temos de fazer dela uma tubaína, para que todos possam provar.” 

Ferréz acostumou-se a receber pedidos de ajuda, não apenas de clientes como Martins, mas de “escritores do gueto”. A abordagem se dá nas próprias lojas da 1daSul – a matriz fica no Capão Redondo e há um estande em Santo Amaro, na internet e, por vezes, no meio da rua. Houve quem entregasse ao rapper poe- mas rascunhados na própria carteira de trabalho. Em outro momento um analfabeto lhe ditou cada um dos versos cunhados na cabeça. É aquilo que o escritor define como “litera-rua” ou “litera-cura”. “Tenho companheiros que estão presos, conseguem me telefonar e recitam contos inteiros. Gato Preto, escritor baiano, é um dos melhores que conheço”, diz Ferréz. 

Aproxima-se da estante, resgata uma cole- tânea intitulada Literatura Marginal, lançada em 2005. Encontra Gato na página 51. 

GALERIA DO ROCK 

ENDEREÇO: RUA 24 DE MAIO, 62 

FUNDAÇÃO: 1963 (SHOPPING 

CENTER GRANDES GALERIAS) 

LOJAS: 450, 190  MUSICAIS 

VISITANTES: MÉDIA DE 5 MIL/DIA 

POR ANA LUÍSA VIEIRA 

cartacapital | 14 de abril de 2010 9

  1. Alzani disse:

    Estive em meu horário de almoço na Loja 1 Da Sul, localizada respectivamente no número 40 da Galeria da 24 de Maio, Centro de São Paulo.

    Conheci a marca através do livro do Ferréz “Manual prático do ódio” (inclusive é um excelente romance) a princípio. Estudo jornalismo e há dois semestres atrás tive uma matéria sobre Rádio Comunitária, retratando a dificuldade passadas pelas mídias locais e sua crescente ascenção nesse mercado dominado por grandes corporações midiáticas.

    Reconheci a loja pelo símbolo e acabei entrando para saber mais sobre os produtos. Fui muito bem atendido pelo Rafael que me explicou algumas dúvidas sobre a questão de utilizar um vestuário e carregar consigo toda uma questão social pela frente. A produção ser feita pela própria comunidade, além dos patrocínios da marca em eventos culturais e a literatura como chave mor para o desenvolvimento intelectual do indivíduo.

    Acabei comprando um boné e o livro de crônicas do Ferréz – “Cronista de um TEMPO RUIM”.

    Parabéns a todos (as) que participam do trabalho, impulsionando a visão do cooperativismo e respeito pelo próximo!

    Salve!

  2. Daniel Pontes disse:

    a melhor

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